9 de dezembro de 2019

O nim indiano e meu pé de pitanga

arvore de nim indiano - O nim indiano e meu pé de pitanga

Cerca de um ano atrás me mudei para uma casa com quintal relativamente grande (para um quintal), onde encontrei algumas árvores frutíferas, como: cajueiro, pé de graviola, pitangueira, pé de pinha e até um pé de noni.

Tava “um mato só”, mas em pouco tempo deixei tudo limpo e pronto para cultivar.

Contarei mais sobre esse quintal nos próximos posts dessa série, que manteremos aqui no GR, mas por hora, vou me ater ao problema que tive com algumas pragas com as quais lidei durante o cultivo.


O pé de pitangas

Fazíamos suco e também eram consumidas in natura. As crianças visitavam a pequena árvore muitas vezes durante o dia, uma novidade para eles, já que de onde viemos, frutas só na quitanda e supermercado. Colher direto do pé… imagine a festa.

Começamos notar alguns insetos, depois outros e mais outros… logo, uma espécie em especial tomou nosso pé de pitanga de assalto, eles basicamente assumiram o controle, anulando minhas investidas na tentativa de interceptá-los.

As pitanguinhas verdes nasciam e logo eram atacadas, os insetos pareciam apressados em “sugá-las”.

Pesquisando, descobri que tratava-se de uma espécie de percevejo que costuma atacar as frutas ainda verdes, o que impede que as mesmas se desenvolvam. Tratava-se do percevejo Leptoglossus stigma (Hemiptera: Coreidae), também conhecido como percevejo-do-melão-de-são-caetano e percevejo-das-frutas.

percevejo das frutas pitanga negocio de quintal giro rural - O nim indiano e meu pé de pitanga
Percevejo-das-frutas

Não achei seguro compartilhar as frutas já “contaminadas” pelos intrusos, então, comecei buscar meios mais eficientes de expulsá-los dali. Não abriria mão de minhas pitangas.

Tentei de tudo que me foi possível, só não usei defensivos químicos convencionais, pois minha meta é manter o quintal de forma totalmente orgânica.

Não vou detalhar as diversas tentativas fracassadas na esperança de recuperar o controle do meu pé de pitanga, mas, compartilharei a solução que deu certo. Conheci o neem indiano, ou apenas “nim”, como também é chamado por aqui.

Em uma daquelas minhas pesquisas, encontrei um agrônomo da Embrapa explicando como lidar com as ditas pragas, não em pitangas, mas em acerolas. Ele utilizava uma espécie de “elixir” produzido a partir das folhas do nim.

Segui as orientações do pesquisador e finalmente consegui me livrar dos “insetos com asas nas pernas”, retomando com isso o controle do quintal. Os invasores já estavam começando a experimentar outras frutas, pareciam testar até as espigas de milho. Estavam conseguindo me incomodar.

O nim resolveu meu problema e me provocou curiosidade, principalmente depois de saber que diversas pesquisas o rodeia, com propósito de viabilizar seu uso em cultivos comerciais em grandes propriedades.

O nim pertence à família do mogno e do cedro. São árvores de grande porte, podendo atingir mais de 30m de altura e 2,5m de diâmetro. Nativa de todo o subcontinente indiano, é resistente a seca, adapta-se com muita facilidade ao norte e nordeste brasileiro, mas, não se limita a tais regiões.

Além de fornecer madeira e soluções para o agronegócio, é muito conhecida por suas propriedades medicinais e terapêuticas encontradas nas sementes, nas folhas e na casca.

Suas folhas, frutos, sementes, casca e madeira são utilizados pela medicina, veterinária, cosmética, como na produção de adubos e no controle de pragas. Nesse último quesito, tem chamado a atenção por ser excelente no controle biológico de diversas pragas e doenças que atacam plantas e animais no campo.


A pasta resultante da prensagem das sementes de nim vêm se mostrando um adubo orgânico promissor. O uso de seu óleo para a produção de biodiesel tem sido objeto de pesquisas e desenvolvimento.

Uso na medicina tradicional

Produtos feitos à base de nim têm sido usados na Índia há mais de dois mil anos, pelos adeptos de Siddha e Ayurvédica, para fins medicinais, notadamente como anti-helmíntico, antifúngico, antidiabético, antibacteriano, antiviral, contraceptivo e sedativo.

Nim é um dos principais componentes das medicinas Siddha, Ayurvédica e Unani, sendo particularmente usado no tratamento de doenças de pele. As folhas de nim são usadas para tratar eczema, psoríase e outras doenças. O óleo de nim é empregado para tratar os cabelos, para melhorar a função hepática, desintoxicar o sangue e equilibrar os níveis de açúcar no organismo.

Como economia

Eu particularmente acredito que estamos diante de uma planta especial, pois ela me parece ter o potencial de resolver problemas críticos no que diz respeito ao tão questionado uso de defensivos agrícolas puramente químicos, e que tantos danos causam ao meio ambiente, mas, que ainda precisam ser utilizados para garantir que as culturas fiquem livres dos invasores.

Durante esse período em que andei pesquisando a planta, entendi que com suas propriedades impares, é encarada de forma séria como um possível e potencial concorrente aos agrotóxicos utilizados atualmente nas lavouras, entretanto, não se limitando somente às lavouras. Encontrei produtores utilizando o nim para combater a mosca-dos-chifres e carrapatos, problema que assola a pecuária.

O nim não se limita a funções defensivas, como já dito acima, fertilizantes viáveis são feitos à base da planta. É inclusive pesquisado por fabricantes de fertilizantes tradicionais.

Pense no potencial sócio econômico… principalmente para famílias carentes do nordeste, onde por sinal, a planta se desenvolve muito bem, na realidade, é onde ela melhor se desenvolve aqui no Brasil.

Agricultura Familiar

Em minhas pesquisas encontrei ainda o depoimento de uma família que já cultiva o nim de forma rentável. Na propriedade eles utilizam como fertilizante, fungicida para combate de pragas, e ainda trabalham forte na fabricação de cosméticos.

Gosto da ideia de olhar para o nim como uma planta “curinga”, realmente acredito no potencial que ela tem e gostaria muito de ver grandes florestas deixando o nordeste brasileiro mais verde, o que beneficiaria economicamente a milhares de famílias tão sofridas dessa parte do país.

Sei que não é uma tarefa simples, se fosse, acho que já estaria feito, mas, não há conquista sem um bocado de esforço, não haverá florestas se as primeiras árvores não forem plantadas e exploradas comercialmente, como já o é em outras partes do mundo, e com sucesso.

Um grande abraço e até o próximo post 😉

Add comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *